terça-feira, 4 de outubro de 2011

Cinco anos após o acidente da Gol, insegurança aérea permanece

Cinco anos após o acidente da Gol, insegurança aérea permanece

Renata Mariz

Publicação: 29/09/2011 07:49 Atualização:


Há exatos cinco anos do acidente da Gol, que escancarou falhas graves do sistema de controle aéreo, e a menos de mil dias para a Copa do Mundo, ainda pairam dúvidas sobre a segurança do céu brasileiro. Alta evasão de controladores, treinamento inadequado e incidentes recentes registrados em documentos sigilosos, aos quais o Correio teve acesso, desenham um cenário no mínimo preocupante. Investimentos anuais da ordem de R$ 1 bilhão desde a tragédia que matou 154 pessoas em 2006 e busca por aperfeiçoamento, segundo a Aeronáutica, dotam o espaço aéreo no país de um alto padrão de segurança. Os trabalhadores do setor, entretanto, não têm tanta certeza disso.

Embora seja unanimidade, inclusive entre os próprios controladores de voo, que houve melhoria dos equipamentos nos últimos anos, a presença de profissionais novatos incomoda a categoria. “Estamos falando de uma função complexa, que exige experiência. A máquina ajuda, mas, até para operar equipamentos com mais recursos, é preciso mais qualificação”, diz Edleuzo Cavalcante, presidente da Associação Brasileira dos Controladores de Tráfego Aéreo e expulso da Força Aérea Brasileira (FAB) após o motim de 2007, quando controladores cruzaram os braços em protesto a condições degradantes de trabalho. Segundo levantamento da entidade, enquanto em 2006 havia 36% de profissionais inexperientes no centro de controle de Brasília (responsável por pelo menos 60% do tráfego do país), hoje são 56%.

A Aeronáutica refuta o dado, destacando que 74% dos controladores hoje têm mais de cinco anos de serviço. Um profissional do centro de controle de Brasília que pede anonimato relata o contrário. “Tenho três anos de formado e posso dizer que sou um dos veteranos. O pessoal sai porque passa em outro concurso, por causa do salário, pelas regras absurdas do militarismo, ou simplesmente desiste pelo estresse”, diz o controlador de 23 anos. Segundo a Aeronáutica, a evasão é de 150 profissionais ao ano, mas estimativas do próprio órgão sugerem uma fuga maior de pessoal. Para 2016, a meta é ter 3,4 mil controladores — 320 a mais que a quantidade atual. Mas, considerando que 300 se formam por ano, o acréscimo deveria ser de 1,5 mil — ou 750, havendo a saída declarada pela Aeronáutica.

Riscos de colisão
Os relatórios de falhas de comunicação, de problemas nos radares e de situações próximas de uma colisão entre aeronaves — que eclodiram depois do acidente da Gol — não se tornaram raridade. Um dos documentos mostra, por exemplo, que, às 12h17 de 25 de março do ano passado, um voo da TAM fez manobra evasiva (acionada pelo sistema anticolisão) devido à aproximação de uma aeronave particular voando a 250 mil pés. “Excesso de tráfego e frequência congestionada”, assinalou o controlador no registro do incidente.

Em 21 de dezembro do ano passado, às 10h28, um voo da TAM que subia de nível chegou tão próximo de um voo da Azul que o sistema anticolisão foi acionado a cerca de 340 mil pés. Ambos fizeram uma manobra classificada no relatório como RA (aviso de resolução, pela sigla em inglês). “O RA é grave, especialmente se em uma altura considerável. Ele dá oito segundos ao piloto para agir. Não é algo normal”, afirma o comandante Carlos Camacho, da área de Segurança de Voo do Sindicato dos Aeronautas. Segundo ele, tem sido frequente o acionamento do sistema anticolisão em São Paulo, em baixas altitudes, devido à presença de helicópteros. “O risco é a complacência. Pilotos se acostumam com o apito porque imaginam sempre que é um helicóptero. Um dia, não será”, diz.

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