sexta-feira, 4 de junho de 2010

Perto do caos aéreo

Perto do caos aéreo

Por falta de infraestutura, aeroportos rejeitam pousos e decolagens

Acostumados ao desconforto das instalações, à demora na retirada da bagagem e à incerteza quanto ao horário do embarque, os usuários da aviação civil brasileira ficaram sabendo que a situação dos aeroportos é ainda pior do que já tinham percebido. Muito antes do movimento que se espera para a Copa do Mundo de 2014, pelo menos 10 dos principais aeroportos do país são obrigados a recusar pedidos de pouso e decolagem. E o pior é que, apesar das estimativas de que o movimento vai triplicar em 20 anos, não há sinal de que essa situação vai mudar em igual velocidade. Pelo contrário, a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), estatal responsável pelos aeroportos, “não alcança a multiplicidade de obras necessárias para acompanhar o crescimento da demanda, o que é agravado pela forte pressão política por investimentos, acarretando dispersão de recursos”. É o que conclui estudo divulgado segunda-feira pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão do governo federal.

Segundo o Ipea, dos 19 pedidos de pouso e decolagem por hora, nos períodos de pico, no Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, só 16 conseguem autorização. Na Pampulha, a situação é parecida, embora em menor escala, pois só se efetivam cinco movimentações para cada oito solicitadas. Os dados examinados pelo Ipea identificam situações ainda piores. Dos 65 pedidos feitos a cada hora no Aeroporto Internacional Franco Montoro, em Guarulhos (Grande São Paulo), somente 53 são atendidos. Em Congonhas, também em São Paulo, das 34 solicitações, somente 24 são aceitas. O Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, de Brasília, vive situação semelhante, com limitação de 36 movimentações para os 45 pedidos registrados a cada hora. No Rio, o problema é no Santos Dumont, que só atende 15 de cada 18 pedidos. Também não são boas as condições em Manaus, Porto Alegre, Curitiba e Natal. O estudo do Ipea confirma que a demanda reprimida dos principais aeroportos brasileiros resultam em transtorno para os passageiros. São deficiências que contribuem para o aumento do número de cancelamento e atrasos de voos.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, contesta os dados do Ipea quanto à capacidade operacional dos aeroportos. Mas essa discussão não resolve os problemas dos usuários. Enquanto isso, não faltam advertências de especialistas, como a do estudo preparado pela consultoria internacional McKinsey, sob encomenda do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Exceto pela desmilitarização do controle do tráfego aéreo e pela transferência da governança da aviação civil para o Ministério dos Transportes, sugeridas pela McKinsey, a maioria das proposições é convergente, incluindo as do Ipea. Sugerem a abertura do capital da Infraero, tornando-a uma sociedade anônima; a concessão dos terminais com lotes de aeroportos rentáveis e não rentáveis; concessões específicas para os primeiro, com definição clara sobre a fonte de recursos; construção de novos terminais mediante a parceria público-privada (PPP); e construção de novos aeroportos pela iniciativa privada. Só não há convergência nas ações do governo que, até agora, tem se limitado a encomendar relatórios.

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