terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Nos radares, aviões mudarão de cor se transponder desligar

Nos radares, aviões mudarão de cor se transponder desligar

Novo sistema será mais um alerta para controladores de vôo evitarem tragédias como a da Gol

Tânia Monteiro

A Aeronáutica vai aperfeiçoar o sistema de identificação de aeronaves nos radares dos Centros Integrados de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo (Cindactas). Elas mudarão de cor na tela quando o avião perder o sinal do transponder, equipamento que permite informar exatamente o ponto onde se encontra. A troca da cor da etiqueta que indica a aeronave no radar será mais um alerta para o controlador de tráfego aéreo ficar atento e verificar o que está acontecendo quando o avião sumir da sua tela.

Saiba o que a Aeronáutica diz sobre o acidente da Gol
O desligamento inadvertido do transponder do jato Legacy pelos pilotos americanos Joe Lepore e Jan Paladino foi um dos fatores determinantes para o choque com o Boeing da Gol, que vinha em sentido contrário a ele, na mesma altitude, em 29 de setembro de 2006, matando 154 pessoas. O controlador de Brasília não havia percebido que o jato não trocou de altitude ao passar pela capital federal.

Em decorrência do acidente, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) elaborou 65 recomendações para os diversos setores de aviação civil envolvidos no acidente. Muitas dessas orientações foram emitidas pouco depois do acidente e já estão em prática desde aquela época. As recomendações serão divulgadas para o público assim que forem apresentadas às famílias, amanhã.

A troca imediata da cor das etiquetas no momento em que o transponder for desligado, procedimento a ser adotado para chamar a atenção do controlador, no entanto, só começará a funcionar no fim do próximo ano, quando houver modificação do software usado no programa de controle do tráfego aéreo. O Cindacta-4 (Manaus) será o primeiro a receber essa melhoria no equipamento.

Outra das recomendações adotadas pela FAB foi a de que cada controlador fica obrigado a detalhar todo o plano de vôo na hora em que falar com o piloto. Como esse foi outro fator determinante para o acidente, já entrou em vigor no fim de 2006. Nesse caso, o controlador que monitorou a saída do jato em São José dos Campos, interior de São Paulo, não foi claro ao dar a instrução aos pilotos, dizendo que eles deveriam voar a 37 mil pés no trecho São José dos Campos-Eduardo Gomes (Aeroporto de Manaus).

Na verdade, os americanos voariam a essa altura apenas até Brasília, quando deveriam mudar de nível, o que se repetiria depois, quando sobrevoassem Mato Grosso. Outros erros de controladores ocorreram quando o Legacy se comunicou com o Cindacta, antes de passar por Brasília, informando a altitude planejada.

O que diz o relatório da Aeronáutica sobre o acidente da Gol
Relatório aponta que pilotos americanos desligaram o transponder, equipamento que poderia evitar o acidente

da Redação - estadao.com.br

SÃO PAULO - No dia 29 de setembro de 2006, um jato Legacy se chocou com um Boeing da Gol e deixou 154 mortos. O acidente foi a segunda maior tragédia da aviação brasileira - seria superado pelo acidente da TAM, que deixou 199 mortos no dia 17 de julho de 2007, quando um Airbus varou a pista do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e atingiu um prédio da empresa. Mais de dois anos depois do acidente, a Aeronáutica concluiu um relatório apontando as causas da tragédia.

Os erros apontados mostram falhas dos pilotos do Legacy - os americanos Joe Lepore e Jan Paladino -, dos controladores de vôo e uma falha de comunicação causada pela interferência de uma terceira aeronave. O relatório deve ser divulgado nesta semana, mas segundo publicado pelo Estado, vai apontar as seguintes conclusões:

Transponder

O equipamento que poderia ter evitado a acidente - porque alerta para a colisão - foi colocado inadvertidamente desligado pela mão de um dos pilotos - 7 minutos depois de o jato passar por Brasília. O equipamento só voltou a ser acionado 3 minutos após a colisão, quando os americanos perceberam que estava em stand by. No total, o transponder permaneceu inoperante, sem emitir sinais para o radar de Brasília, por 58 minutos.

O desligamento do transponder trata-se do ponto central na cadeia de erros dos pilotos do Legacy e dos controladores de vôo mostrada numa detalhada e precisa animação - com mais de duas horas -, feita por computador, a partir dos dados recolhidos pelas caixas-pretas das aeronaves. De acordo com a Aeronáutica, os problemas começam com os controladores de São José dos Campos, de onde o avião decolou.

Altitude

Os pilotos do Legacy não foram instruídos corretamente sobre a altitude na qual deveriam voar. O operador que monitorou o jato disse que eles deveriam voar a 37 mil pés no trecho São José dos Campos-Eduardo Gomes (Aeroporto de Manaus). Na verdade, deveriam seguir nessa altitude até Brasília, quando deveriam mudar de nível, fazendo nova mudança ao sobrevoar Mato Grosso. Outros erros de controladores ocorreram quando o Legacy passou por Brasília. O militar de plantão não viu que o jato não estava seguindo o plano de vôo e não mudou de altitude. Também não percebeu quando o transponder foi desligado.

Houve novo erro quando, na troca de turno, o novo operador foi informado, erroneamente, de que o Legacy estava voando a 36 mil pés, embora estivesse a 37 mil, na rota de colisão com o Gol. O operador também não viu ou não checou com os pilotos porque o transponder do jato estava desligado. O Legacy e o controle de tráfego ficaram quase 50 minutos sem se comunicar. E, depois, quando o monitoramento do Legacy foi passado para o controle de Manaus, mais uma vez foi transmitida a informação de altitude errada.

Pilotos americanos

Quanto aos pilotos americanos, a Aeronáutica mostra que eles não conheciam direito nem o aparelho que estavam pilotando nem as regras de vôo usadas no País, que seguem o padrão da Organização Internacional de Aviação Civil (Icao, na sigla em inglês). Essa norma determina que o plano de vôo tem de ser rigorosamente obedecido.

Os pilotos americanos seguiram procedimentos da Agência Federal de Aviação (FAA), vigente nos Estados Unidos, que determinam a manutenção do plano de vôo até ordem em contrário da torre. O acaso ainda ajudou a tragédia: um terceiro avião atrapalhou a comunicação.

Comunicação falha

Após desesperadas tentativas de falar com os controladores de Brasília, a última comunicação a que os pilotos do Legacy procuraram fazer com o Cindacta-1 não foi ouvida pelos militares na capital federal porque uma outra aeronave que passava pela região acionou o botão de chamada no mesmo momento.

O problema é que, quando dois rádios acionam esse chamado ao mesmo tempo, nenhum dos dois fala e o receptor também não ouve ninguém. Depois disso, o Legacy não conseguiu mais chamar Brasília porque a freqüência de rádio que estava usando não alcançava mais o Cindacta-1.

Na chamada anterior, o piloto do Legacy pediu a Brasília que repetisse as freqüências que deveria passar a usar. O piloto só conseguiu ouvir os três primeiros dígitos da seqüência numérica 123,32 Mhz, sem conseguir entender os décimos e centésimos. Quando o Legacy pediu para que a freqüência fosse repetida, Brasília não conseguia mais ouvi-lo.

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