quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Vôo 1907: Associação diz que trabalha para punir culpados

Vôo 1907: Associação diz que trabalha para punir culpados

Fabiana Leal,
do Terra

São Paulo - A presidente da Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do Vôo 1907, Angelita de Marchi, viúva do empresário Plinio Siqueira, disse que a dor da perda das 154 pessoas no segundo maior acidente aéreo brasileiro, há dois anos, vai acompanhar os familiares toda a vida. Ela afirmou que a associação foi criada “para trazer a verdade à tona e para que os culpados sejam punidos”. O vôo 1907 da empresa aérea Gol saiu de Manaus e ia para Brasília quando se chocou no ar com o jato Legacy. Ao contrário do que aconteceu com o avião da Gol, o piloto Joe Lepore e co-piloto Jean Palladino conseguiram pousar o Legacy.

“Não tinha a esperança de ter a ferida cicatrizada (nesses dois anos). Essa é uma dor que vai acompanhar os familiares para a vida toda. Toda a perda não pode ser mensurada. Muitas pessoas perderam filhos em idade jovem e isso é difícil para trabalhar. Filhos ficaram sem pai, sem mãe. Essa é uma situação extremamente complicada que não vai cicatrizar com muita facilidade. O que a gente tem feito é arrumar jeitos de trabalhar com essa dor. Fazer com que a morte dessas pessoas não tenha sido em vão. Criamos a associação e estamos trabalhando para a verdade vir à tona e para que os culpados sejam punidos, para que mudanças necessárias na aviação aconteçam e para que acidentes assim não voltem a acontecer”, afirmou Angelita.

Segundo ela, quase nada mudou nesses dois anos após a tragédia com o Boeing da Gol. “Temos acompanhado a investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) - que vem protelando a entrega do relatório a cada dois meses. A última informação do Cenipa, de agosto, era de que no início de outubro o relatório estaria voltando dos EUA. Temos esperança que este relatório saia até o final do ano. É muito tempo para a confecção desse relatório.”

Angelita também considera lenta a ação criminal que acontece em Sinop (MT). “Cada passo que dão, leva muito tempo para ter resposta. Nossa luta em relação ao processo é para que não caia no esquecimento ou que não seja arquivado e tenhamos as punições adequadas.”

De acordo com a presidente da associação, cerca de 30 famílias já fecharam acordo com a Gol. Outros 120 processos estavam na Justiça americana, que os rejeitou neste ano. Com isso, as famílias que, segundo Angelita, estão desgastadas, têm procurado a Gol para fechar acordos. “Temos conhecimento de 40 famílias que estão por finalizar esse acordo”, disse ela.

Esquecimento
Angelita afirmou que não acredita que o acidente com o avião da Gol tenha sido esquecido pela população e pelo governo após o acidente da TAM, no dia 17 de julho de 2007, em São Paulo.

“Não digo que esqueceram após o acidente. Dão (governo) pouca atenção aos dois acidentes. Ficamos muito decepcionados. A (associação da) TAM tem uma mobilização maior do que a nossa, pois não é pulverizada. O bloco é grande no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Eles já fizeram as solicitações deles no calor da coisa, fizeram a TAM assinar compromissos com eles, como o de levar as famílias de dois em dois meses para as reuniões. Facilita um grupo unido.”

Segundo Angelita, o caso do acidente da Gol aconteceu de forma diferente. “Solicitamos que a Gol nos levasse ao Jardim Botânico, em Brasília, onde plantamos os ipês para uma homenagem. Nem se quer responderam, Mandei diversos e-mails, fiz várias ligações. Não veio resposta nem para dizer: “não podemos atender esse pedido”. Simplesmente ignoraram.”

Hoje, o pedido dos familiares e amigos das vítimas do vôo 1907 é para que o governo, principalmente, seja mais atencioso com as questões do seu País. “Nós temos um problema sério na aviação, problema que vinha se mostrando antes do acidente da Gol. O acidente foi a gota d”água para que as coisas viessem à tona. Não queremos mais acidentes. Que o governo olhe com muita atenção e faça as coisas necessárias, que estaremos cobrando.”

Fatalidade
Angelita não considera que o acidente tenha sido uma fatalidade. “Uma fatalidade é se um raio tivesse atingido esse avião. O que aconteceu foi erro, erro muito sério e grave - tanto dos pilotos quanto dos controladores. Os controladores deverão ser punidos e os pilotos não terão punições. A gente tem esperança que o MP (Ministério Público) reverta a denúncia (contra os pilotos) de culposo para doloso para que a gente consiga questionar no exterior para que alguma coisa aconteça. Nem que (os pilotos) tenham o brevê (autorização) cassado e eles não possam mais atuar como pilotos em lugar nenhum.”

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