domingo, 15 de junho de 2008

FOLHA DE SAO PAOLO: Relatórios mostram que caos aéreo continua

Relatórios mostram que caos aéreo continua

Folha teve acesso a 60 documentos feitos desde o 2º semestre de 2007 que apontam falhas no sistema de tráfego aéreo Registros de quase-colisões estão em relatórios de perigo, livros de ocorrências e imagens de telas dos radares da Aeronáutica

ALAN GRIPP
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O governo decretou o fim do caos aéreo, mas a aparente tranqüilidade nos aeroportos escamoteia o fato de que graves falhas no controle do tráfego de aviões continuam acontecendo. Essas falhas, centrais para a crise que engolfou o setor a partir do choque de um jato Legacy com um Boeing da Gol em setembro de 2006, são relatadas em 60 documentos e relatórios confidenciais confeccionados a partir do segundo semestre de 2007 aos quais a Folha teve acesso.

Os registros de quase-colisões estão em relatórios de perigo, reportes de incidentes, livros de ocorrências e imagens de telas dos radares nos Cindactas (Centros Integrados de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo). Muitos deles foram feitos em 2008.

Em 25 de janeiro, um Boeing da Gol e um Airbus da TAM entraram em rota de colisão ao iniciaram procedimento de descida em São Paulo. De acordo com o informe de incidentes 02/2008, ao atingirem o nível de vôo 365 (36.500 pés, ou 11,12 km), o risco de um choque fez disparar o sistema anticolisão das aeronaves.

O registro do incidente revela que o controlador tinha como assistente um estagiário, que, em seu relatório, disse não ter acompanhado as instruções do companheiro. O controlador alegou que o comandante da Gol, que seguia para Guarulhos vindo de Lima, confundiu a posição determinada por ele.

Situações como esta podem se dar por falhas de pilotos, controladores ou problemas técnicos, estes relatados em grande quantidade pelos controladores nos livros de ocorrência. Por falta de comunicação, um avião da companhia Trip, que acabara de decolar de Cuiabá rumo a Rondonópolis (MT), quase se chocou com a aeronave prefixo PT-KDS. O incidente aconteceu em 28 de novembro do ano passado.

No livro, o controlador diz que o episódio foi "extremamente grave", pois os aviões se encontravam na mesma altitude e separados por "menos de 2 milhas (milhas náuticas, o equivalente a 3.704 metros)". Nesse caso, o sistema anticolisão do avião da Trip disparou, evitando o acidente. O controlador afirma que acontecem com freqüência "decolagens sem comunicação em aeródromos vizinhos" a Cuiabá.

Em 20 de março deste ano, outra quase-colisão. Desta vez, um Boeing-737 da Gol, que se aproximava de Belo Horizonte vindo de São Paulo foi autorizado a iniciar a descida, "sem restrição", passando do nível 360 (36 mil pés) para o 200 (20 mil pés). Entre os dois níveis, porém, havia um outro 737 da Varig, que informou ao controle ter recebido "resolution", o alerta do sistema anticolisão.

Nesse caso, o controlador responsável reconheceu o erro e o atribuiu ao fato de estar detido no trabalho. O informe de incidente não revela o motivo da prisão. Quando estão presos, os controladores trabalham normalmente, mas permanecem aquartelados depois do expediente. "Acredito que por estar detido na unidade e preocupado com a minha família que está sem assistência meu nível de atenção está baixo", relatou ele.

Falhas nos radares também podem induzir os controladores a erros. Os arquivos da Aeronáutica guardam dezenas de relatos de casos assim. No Cindacta-4 (Manaus), é comum o aparecimento nas telas dos radares dos chamados alvos falsos -quando surgem registros de aviões que não existem.

Também são comuns a duplicação de alvos, o que pode levar o controlador orientar uma aeronave sem saber a real posição em que ela se encontra.

Os controladores registram ainda a existência de zonas cegas, onde não é possível o monitoramento por radar ou contato via rádio. O livro de ocorrência do centro de controle de Cuiabá registra, no dia 18 de dezembro de 2007: "Na área de Sinop e Sorriso (MT) não é possível fazer contato com o ACC-BS (centro de controle de Brasília), nem com o ACC-Amazônico (Manaus)."

A região é a mesma onde aconteceu o acidente com o Boeing da Gol. À época, apesar das negativas da Aeronáutica, vários controladores relatavam problemas na comunicação.

Os livros de ocorrência contêm relatos de defeitos em equipamentos vitais, como TFs (redes telefônicas para coordenação do controle aéreo) e do ILS (Instrument Landing System), sistema para orientação precisa do pouso.

Os controladores, em alguns centros, reclamam ainda de más condições de trabalho. Em Cuiabá, os livros trazem queixas da grande quantidade de mosquitos nas salas de controle e até da presença de ratos sob os consoles de trabalho.

Procurada pela Folha, a Ifatca (Federação Internacional das Associações dos Controladores de Tráfego Aéreo), que realizou ano passado uma inspeção no Cindacta-1 (Brasília), fez duras críticas ao controle aéreo brasileiro, que classificou de "frágil".

"Se nada significativo for feito pelo Brasil e pelas autoridades responsáveis, o próximo acidente está "planejado". Nós só não podemos dizer quando e onde irá acontecer", disse Christoph Gilgen, 45, representante da Ifatca na Suíça.



FAB nega que controle seja inseguro



DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

A FAB nega que o espaço aéreo brasileiro seja inseguro e atribuiu as falhas apontadas nos documentos reservados aos quais a Folha teve acesso a questões pontuais.

Segundo a Aeronáutica, uma prova da segurança do espaço aéreo brasileiro foi a eleição em 2007 do Brasil para o primeiro grupo do conselho da OACI (Organização de Aviação Civil Internacional, uma espécie de ONU dos sistemas aéreos nacionais do mundo).

Em nota oficial, a FAB listou os esforços que alega fazer para melhorar a infra-estrutura do controle aéreo.

Entre eles, citou a contratação de 220 controladores da reserva, civis e militares, e a formação de outros 305 nos últimos dois anos. Também relacionou a inauguração do Laboratório de Simulação de Controle de Tráfego Aéreo, com capacidade de treinamento para 768 profissionais por ano.

A FAB afirmou que, desde o caos aéreo que teve seu apogeu em 2007, passou a pagar cursos de idiomas e de formação de instrutores e monitores.

Segundo a Aeronáutica, foram modernizadas as torres de controle dos aeroportos de Congonhas e do Galeão, com a "integração de sistemas e a redução de equipamentos na sala de controle".

Outra medida tomada pela FAB, segundo a nota, foi a implementação do Programa de Garantia da Qualidade no Controle no Espaço Aéreo, com o objetivo de verificar se os serviços prestados atendem a lei em em vigor.

A Aeronáutica citou ainda a evolução dos sistemas de 17 radares, a implantação de equipamentos novos em Campo Grande e a modernização do ACC (Centro de Controle de Área) de Curitiba.

Ao comentar os incidentes citados pela Folha, disse, por exemplo, que as comunicações "são afetadas por fenômenos meteorológicos, interferências, posição e altitude da aeronave, bem como tipo de equipamento utilizado a bordo". (AG)



Major reclama de aumento do tráfego no país



DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Com o comando do Cindacta-2 (Curitiba) reunido em 13 de maio passado, o major Carlos Gomes, chefe do centro de controle local, se queixou do aumento do tráfego aéreo e fez um desabafo, relatado em ata: "O [major disse que o] setor foi assumido baseado nas informações passadas pelo ACC-BS [centro de Brasília], hoje se percebe que o movimento é maior do que o previsto e que se soubesse disso não teria assumido o setor".

O documento, classificado como confidencial pela FAB, registra uma reunião convocada para analisar um Ricea (Relatório de Incidente no Controle do Espaço Aéreo) e analisar a conduta de dois controladores envolvidos no episódio. Eles orientavam o tráfego aéreo quando houve uma quase-colisão entre um avião da FAB e outro da companhia portuguesa TAP.

O tenente-coronel Norival Floriano Junior, comandante do Cindacta-2, disse que o "planejamento deficiente dos controladores foi determinante". Mas logo em seguida o comando decidiu, por unanimidade, absolver os controladores.

Dados da Infraero mostram que aumentou em 15% o movimento nos aeroportos brasileiros entre 2005 e 2007, quando foram contabilizados 110,6 milhões de passageiros.Em nota, a FAB diz que a afirmação do major Gomes "não indica a ultrapassagem do limite previsto".

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