domingo, 23 de março de 2008

Fábio Schaffner: Buraco negro no ár

Buraco negro no ar

FÁBIO SCHAFFNER | Brasília

Documentos sigilosos do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) da Força aérea Brasileira (FAB) revelam um buraco negro no controle de tráfego da aviação na Amazônia. É a primeira vez que um relatório da FAB confirma um ponto cego na região onde ocorreu o acidente com o Boeing da Gol, que matou 154 pessoas em 2006. A existência de áreas descobertas por radares vinha sendo denunciada pelos controladores de vôo, mas sempre foi negada pela Aeronáutica.

Os documentos fazem parte de um dossiê dos controladores de vôo da Aeronáutica, remetido à Justiça Militar e à Procuradoria Geral da República pela federação da categoria. ZH teve acesso exclusivo ao dossiê. São 503 páginas que mostram a fragilidade do sistema aéreo, produzidas pela Aeronáutica e reunidas clandestinamente desde a tragédia da Gol.

O buraco negro aparece num Relatório de Perigo do Cenipa, com data de 19 de novembro de 2006 e assinado pelo coronel aviador Cláudio Muniz: "Não é possível contato com o centro amazônico abaixo do FL-120 quando decola-se de Parintins para Manaus nas freqüências indicadas, apesar das diversas tentativas. (...) Crescem os famosos buracos negros da comunicação aeronáutica em áreas da Amazônia, causando transtornos aos aeronavegantes, inclusive com repercussões de extrema gravidade para a segurança de vôo".

O dossiê mostra casos de aeronaves se cruzando no ar a uma distância abaixo do limite de sete quilômetros, recomendado pela FAB. Seis dias antes da detecção do ponto cego, um Learjet da FAB, com o então ministro da Defesa Waldir Pires a bordo, quase colidiu no ar com um Airbus 320 da TAM. Segundo o Reporte de Incidente nº 15/2006, foram necessárias duas ordens de emergência para que o Airbus desviasse da rota. As aeronaves passaram a 4,2 quilômetros.

No mês passado, um supervisor de vôo do Cindacta 1, em Brasília, desmaiou diante da iminência de um acidente na região de Bragança Paulista (SP). E pelo menos outros quatro supervisores teriam sofrido paralisia facial por estresse. Este ano, o Cindacta 1 recebeu 53 novos controladores militares.

Contraponto

O que diz a Aeronáutica

O comando da Aeronáutica afirma desconhecer o material enviado pela Federação Brasileira das Associações de Controladores de Tráfego Aéreo. Segundo a Assessoria de Comunicação da FAB, o comando só irá se pronunciar sobre o caso depois de ser notificado oficialmente.

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